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quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Absterger

Voltei pro meu corpo arrancando dele sua pele. Produzi novos tecidos dérmicos no reencontro com meu corpo. Me sujei de duvidas ao tentar responder "o que pode a pele?". Pode a pele absterger meu corpo?


domingo, 3 de setembro de 2017

Carta a Gabriel

Eu sou a resposta que não foi pensada para a pergunta que você fez ha três anos atras. Você me constitui, habita minha memória, minha identidade, meus afetos, minha corporeidade. Não mais te nego, não tento te apagar, muito menos quero te esquecer. Hoje compreendo que você  atualiza-se em mim. Somos amigas, companheiras, confidentes. Somos pessoas diferentes.

Meu olhar mudou. Assusto-me ao lembrar do vazio que preenchi com incertezas, pois compreendo que este lugar não mais existe. Não sou um sujeito faltante, confortado com a ideia de que aquilo que procuro nunca será encontrado. Tenho náuseas ao me pensar enquanto corpo melancólico, triste, saudosista. Compreendi que a tristeza não deve ser naturalizada como uma etapa para consegui experienciar uma inabalável saudade psíquica, que por sinal é utópica. Entendo que momentos de angustias serão comuns em mim, irão me atravessar diversas vezes ao longo desta vida. Contudo, não os naturalizo, e sim os denuncio. Não quero ser um corpo a deriva, quero ser nadador  Mergulhador. Tenho objetivos. Quero aprender a não me afundar, mesmo sabendo que no futuro novamente irei habitar o fundo deste mar de incertezas. Ser saudável é ter um corpo forte o bastante para sobreviver aos inúmeros náufragos.  

Revindico minha felicidade, minha alegria. Reivindico autonomia para produzir um corpo que consegue apontar em si certezas. A transsexualidade não me contempla, muito menos a travestilidade. Tenho me pensado Bixa. Sendo assim pergunto-me: a quem pertence o feminino?. Me perdi nas infinitas possibilidades de identidades que foram-me apresentadas e experimentadas, e as desaprender tem sido complicado, porem necessário.  Venho me reencontrando na Bixa. Sou negra. Sou bixa. Sou feminina. Não mais me nego, me reafirmo, me reivindico. Reivindico ajuda, paciência. Reivindico um novo corpo. Reivindico força para consegui habitar este novo corpo. Reivindico autoria sobre minha vida. Eu me quero, não me nego.

Eu não sou mulher, não sou travesti, essas corporeidade localizam-se em mim como próteses discursas, que potencializam minha bixalidade.  Não forte, não sou maravilhosa, não sou incrível. Não sou um personagem. Não sou Gabriel. Não sou a Castiel que muitos esperam que eu seja. 
Sou intensa, insegura e  frágil. 
Estou me re-conhecendo.
Me redescobrindo.
Me reabitando. 
Me recorporificando. 

Sou mar e rio. Nascente e areia. Sou o ar. 


  

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Estou me costurando

Fui convidada para participar da edição Identidade da revista Cartola Mag . Produzi um texto ético-poético sobre meus processos identitários, o titulei "Estou me costurando". Nele, denuncio os mecanismo que precarizam meu corpo negro-bixa. E discorro sobre meus movimentos de ataque à essas relações que me subalternizam.
Logo abaixo, há um trecho de minha contribuição. Leiam completo em:https://issuu.com/cartolam…/docs/cartola_mag_-_identidade/62
"E eu costuro em mim, feminilidades marginalizadas, deslegitimadas, exterminadas, ridicularizadas, questionadas por serem corporificadas em corpos que ocupam o lugar da precariedade, no sistema de raça. Há em mim fragmentos de mulheres negras, indígenas, travestis, transexuais e também bixas pretas não-binárias. Costuradas em minha pele estão Madame Satã e a dançarina Lacraia. Sou apenas uma pele feminina do terceiro mundo, exportada como a mercadoria mais barata do mercado? Não!. Reivindico-me enquanto pele feminina autônoma, sou capitalistamente inegociável, sou impagável, sou imensurável. Eu sobrevivo de trocas e não de compras. Troco bons afetos, numa tentativa de criar uma rede mundial de confiança. Segurança. Respeito."


terça-feira, 29 de agosto de 2017

ACREDITE E FAÇA - experiências de uma corporeidade preta-bixa-artista

Neste vídeo falo sobre minha experiência enquanto artista negra bixa. Se reconhecer artista tem sido um processo doloroso, repleto de inseguranças, incertezas, crises depressivas e de auto-estima. Mas, também venho experimentando bons afetos. Amor, felicidade, confiança, saúde. Bem, essas guerras neocoloniais estão longe do fim, sendo assim criei uma performance chamada "COMO SE PREPARAR PARA A GUERRA". Neste vídeo, também falo sobre ela. 
Agradeço ao Jorge Lopes, pelas palavras que me potencializaram. 
Agradeço a bixa Napê pelas inúmeras conversas que expandiram minha corporeidade negra-bixa-artista.




segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Carta a um antigo companheiro de nado

Demoramos um tempo para criarmos coragem e entramos juntos neste mar de paixões e incertezas. Nos banhamos de amor e raiva. Juntos descobrimos ilhas de liberdade, ilhas de felicidade, ilhas de alegria. Eu adorei  conhecer esses lugares com você. 
Hoje vejo que nós nunca nadamos na mesma velocidade ou profundidade. Isso não é possível, ainda bem. Em vários momentos mergulhamos sozinhos, numa tentativa de encontrarmos paz, silencio. Eu tive medo, confundi alguns de seus mergulhos com afogamento. Quis te estender minha mão, quando o que você precisava era de minha paciência. E hoje a tenho. 
Eu adorava nadar com você, reaprendi contigo movimentos que tinha esquecido. Com você redescobri meu corpo, minha pele. Deve ser por isso que as vezes desejo nadar novamente contigo. A sensação que eu tenho é que agora consigo diferenciar afogamento de mergulho. Esse deve ser o motivo de eu sentir vontade de achar um novo companheiro de nado. Penso que poderia ser você, mas lembro das vezes que precisei de seu (a)braço e não o tive. Contudo, ainda assim continuo desejando novos nados com você, mesmo sentindo que meu corpo não esta habito para isso. 
Para nadarmos juntos novamente, você teria que me apresentar novos movimentos. E eu teria que me esforçar para aprende-los. Eu quero ter essas aulas, quero aprender, sendo você o professor ou não. Sim, quero ser reconquistado e amar novamente, não tenho vergonha ou medo de dizer isso. E você, ainda tem receio desses sentimentos? 
Apesar de tudo, nadar sozinho também tem me feito bem. É estranho, doloroso, confuso, mas necessário. Por conta disso, me pergunto se essa carta é uma maneira de que encontrei de justificar um fracasso, um afogamento. Mas, querer não mais estar solitário é fracassar? 
Enfim, as águas me contaram que você também não esta bem. Tive vontade de te ajudar, porém, aqui de longe não consigo perceber se você esta se afogando ou apenas mergulhando. Para mim também não esta sendo facil. Espero que nós dois consigamos chegar à superfície novamente. 
Ainda me preocupo com você, mande notícias assim que quiser e puder. 

Abraços, daquele que te disse adeus por necessidade, e não por vontade.